Os últimos dias de Isabela Garbocci - Natalia Noronha

quarta-feira, 13 de setembro de 2017


Isabela Garbocci tem seus dias contados. Ainda não sabe disso, e caminha passo após passo com peso nos ombros, os cabelos longos e louros carregados de estática, os pés apertados dentro do sapato do uniforme da escola indo de encontro ao solo quente e úmido de uma chuva de verão carioca. Nada lhe apetece e o clima ensolarado lhe é um tormento para a alma obscura. Tudo parece mudar, contudo, quando vai à festa boêmia na casa de seu melhor amigo. Ouvindo a música latente em meio às luzes vermelhas, sentindo-se finalmente acolhida em meio à vida noturna, Isabela conhece Miguel: um rapaz de cabelos azuis e conversa interessante, que sentiu imediatamente atração pela garota. Um série de reveladoras sensações se instala na mente de Isabela após esse evento. Ainda por cima, recebe uma ligação suspeita de seu primo Serafim, que não a vê desde a infância, clamando ter saído de casa e necessitando de abrigo. Agora, isabela terá de encarar os próprios medos, enfrentar sua cólera e resguardar o que lhe é mais precioso: seu coração.

Bienal do Livro é sempre o lugar perfeito para conhecer novas obras, encontrar velhos e novos autores e, acima de tudo, rechear sua estante de coisas boas. Claro que este ano não foi diferente, ao chega à Bienal do Rio de Janeiro 2017 me deparei com o estande da editora Novo Século, que ano passado já tinha me trazido como parceira a maravilhosa Fabianne Zambelli e, neste ano, me brindou com a doçura da Natalia Noronha.
A Nat me abordou com seus cabelos loiros e seu jeitinho doce falando sem parar sobre o livro que ela tinha escrito entitulado "Os últimos dias de Isabella Garbocci" e me deixou curiosíssima sobre o desenrolar da história.
Já adianto que a Nat é linda, e tem todo aquele amor pelo romantismo mórbido de Byron que fez eu me lembrar de mim mesma quando tinha meus vinte e poucos anos (qualquer semelhança é mera coincidência).
Um pouco sobre a história: Isabela é uma garota um pouco fora do comum, dessas que gostam de se esconder e fingem não ter sentimentos, mas que por dentro se autodestroem.
Com um jeitinho meigo, porém introspectivo, roupas punk e regada a álcool e cigarros, a menina conhece Miguel, um garoto que já passou por quase as mesmas coisas que ela e com os mesmos problemas de externar aquilo que sente, aquela dor e angustia.
Até que Isabela, que agora finalmente estava feliz, encontra um novo caminho, complexo, tortuoso e cheio de problemas chamado Serafim e sua jornada entre buscar a felicidade ou desistir de tudo finalmente começa.
Primeiras impressões: A leitura em si é absolutamente maravilhosa, cada partezinha que eu conhecia sobre a vida de Isabela eu queria mais. Logo no início do livro o leitor já fica ciente de que é um texto pós morte, que |Isabela contará a sua história e os ‘comos’ e ‘porques’ fez com que ela chegasse a seu resultado final: morte.
Impressões finais:  O livro retrata a vida, o pensamento e os sentimentos de uma pessoa que esconde sua dor em pequenos cortes pelo seu corpo, coisa que eu, particularmente, nunca entendi. Confesso que sou um pouco cética para algumas coisas, ainda que ame essa fase bucólica do romantismo de Byron.
O livro da Natalia me fez enxergar um pouco do mundo dessas pessoas, as depressões, dores e sentimentos, Natalia soube trazer ao leitor cada detalhe dos problemas da Isabela e magicamente externar o que muitas vezes uma pessoa com depressão não consegue.
Uma das passagens que mais me tocou foi quando Isabela explica o porquê dela se cortar, porque ela preferia infringir dores físicas em si mesma.
Certa vez uma amiga me disse que as dores físicas escondem as emocionais, e sinceramente aquilo nunca tinha feito sentido para mim, eu pensava: “poxa que criança boba, vai tomar um sorvete que passa”. É cruel dizer isso, eu sei, mas eu pensava. Foi quando Isabela Garbocci disse “eu gosto de saber que tenho controle sobre alguma coisa, que posso controlar minha vida”. E foi quando eu entendi que muitas vezes a dor e o sofrimento não te fazem chegar lá, mas aquela sensação de que você é tão supérfluo e sem valor faz.
“O que eu gostava de sentir ao me cortar – falei, retomando ao assunto – era a sensação de que eu poderia controlar a minha vida de alguma forma. Como se eu pudesse dar um basta no momento em que eu quisesse. Eu poderia ser  a rainha do meu destino, Sentia-me menos perdida, menos incapaz.”

Muitas vezes deixamos de prestar a devida atenção às pessoas a nossa volta, provavelmente porque o ser humano é mesmo egoísta, mas principalmente porque não sabemos e não conhecemos a carga que cada um carrega.
As vezes me vejo mulher, adulta, com 30 anos recém feitos, formada, feliz, trabalhando e amando a vida, é difícil entender quem não ama.
Quero dizer, depois do que Isabela Garbocci me mostrou que eu finalmente pude entender, e pedir que esses jovens e adultos, nesse mês de setembro que é o mês que todos nos voltamos a lutar e combater o suicídio, que todos olhem a si mesmos e tentem entender o coleguinha do lado, seja ele um depressivo ou alguém que um dia foi cético como eu, que tentem entender que nem todas as pessoas no mundo são plenamente capazes de nos entender até porque muitas vezes não somos realmente capazes de externar o que pensamos e sentimos.
Então, por favor, tenham paciência e não desistam da vida okay? O mundo também é feito pra gente que sofre.
Sobre o autor: Natalia Noronha nasceu no dia 17 de janeiro de 1996. Caracteriza-se, como bem disse seu antigo professor de Língua Portuguesa do Ensino Médio, pelo lirismo que carrega em seu cotidiano. Criou gosto pela literatura aos dez anos, e a partir de então, passou a produzir contos. Por fim, criou apreço aos poemas, a partir de leituras como Lorde Byron, Edgard Allan Poe e Charlotte Bontë, mentores do romantismo e da morbidez. Seu primeiro livro, escrito sob o nome de Natalia Tavares – a morte do tempo – foi publicado quando ela ainda se encontrava na escola. Natalia atualmente cursa Letras; Inglês na Universidade Federal do Rio de Janeiro e continua convivendo com seu olhar peculiar e gótico sobre o mundo, com o qual, provavelmente, sempre conviverá.

PS: Tem um final alternativo lá no blog da Nati, ainda não li, mas vou <3


2 comentários:

  1. Compartilho de muito das suas impressões: o livro é denso, bem articulado e surpreendente: ser 'póstumo' foi uma ideia genial, pois além de criar expetativa, fomenta a curiosidade quanto ao enredo, e como dá azo ao desfecho!Recomendo fortemente a leitura!

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  2. Eu tive essa sensação também! Claro que sabia que sabia o que aconteceria com ela justamente por ser póstumo, mas o "como" mexeu muito comigo!
    Que bom que gostou, Paula!
    Seja bem vinda ao Desça já da minha nuvem ��❤️

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